Retalhos

junho 26, 2009

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Cover

Craig Thompson cresceu numa família pobre e extremamente religiosa, num ambiente de opressão e de temor a Deus, forçado a dividir a cama com o irmão até a adolescência, vítima frequente de bullying escolar e da intransigência de seus pais, que nunca lhe deram direito a ter uma opinião. Isso, somado à lavagem cerebral religiosa pelo qual passou, tornaram-no um crente fervoroso, fazendo-o renegar o seu dom para o desenho e se dedicar a uma vida “em Cristo”.

Todavia, num retiro para jovens cristãos (que mais se assemelhava a uma confraternização entre os mauricinhos da cidade, pra ser honesto), ele se depara e socializa com um grupo de párias tão deslocados quanto ele; e, entre eles, uma jovem chamada Raina lhe chama a atenção. Expressiva, jovial, vívida e independente, em muitas maneiras a sua total antítese. Tais como dois corpos de cargas opostas, eles se atraem, num relacionamento que afetará ambos profundamente.

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Retalhos se assemelha a Fun Home no sentido de se tratar de uma auto-biografia com ênfase evidente em determinado aspecto da vida do autor; enquanto que em Fun Fome a relação de Alison com o pai é o foco, em Retalhos é a relação entre o protagonista (o autor) com seu primeiro amor (Raina, a moça na capa) que é abordada com mais profundidade.

Além disso, em comum as duas HQs também apresentam numerosas idas e vindas no tempo, costuradas por narrativas sólidas e engajantes, onde cada recapitulação (ou “flashback”) funciona para justificar as ações no presente por um viés psicológico ou para realçar certos traços comportamentais dos personagens e/ou seus estados de espírito. Notar-se-á, por exemplo, como a relação entre Craig e o irmão é retratada de forma intensa no começo da livro e gradativamente deixada de lado, culminando numa espécie de metalinguagem narrativa – conforme os irmãos, na vida real, distanciaram-se, a interação entre os dois, na HQ, também.

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Retalhos se trata de uma obra densa (são mais de 592 páginas), rica em metáforas e mensagens, que merece ser lida e relida várias vezes para ser apreciada em sua plenitude; lá fora, a obra venceu três prêmios Harvey (Melhor Artista, Melhor HQ e Melhor Cartunista), dois Eisner (Melhor Escritor/artista e Melhor HQ) e diversos outros, reforçando o reconhecimento ainda que tardio dos quadrinhos como mídia adulta em potencial.

No Brasil, foi editado pela recém-formada Cia das Letras., subdivisão da Companhia das Letras dedicada exclusivamente a quadrinhos alternativos, com um preço de capa bastante atrativo de R$49,90, baratíssimo para uma obra com quase 600 páginas de arte, papel de qualidade e excelente diagramação.


Persépolis – Vivendo sob o peso do véu

agosto 15, 2008

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O que você sabe sobre o Irã? Ou melhor, o que você sabe sobre o Irã além da guerra contra o Iraque? Pois é, muita gente não sabe muita coisa sobre a história ou a cultura do país. Sabemos apenas que é um país fundamentalista, que tem regras rígidas de comportamento, principalmente no que se refere às mulheres iranianas.

E o que você sabe sobre livros-reportagem? Pra quem não sabe, livro-reportagem é um gênero jornalístico no qual é narrada uma reportagem extensa, cujos meios de comunicação tradicionais – jornais, revistas, etc – não fornecem o suporte mais adequado para sua veiculação. Dentro desse gênero destacam-se atualmente os quadrinhos auto-biográficos. Um exemplo desse tipo de obra são os quadrinhos de Art Spiegelman, principalmente a chocante e, na mesma proporção, brilhante obra Maus, que retrata a Segunda Guerra Mundial.

Pois bem, pra quem quiser saber um pouco mais sobre o Irã e ler um ótimo livro-reportagem, eu recomendo a leitura de Persépolis, de Marjani Satrapi, uma iraniana que descreve sua vida desde a infância até a idade adulta, em meio à guerra, repressão e principalmente em meio ao fanatismo religioso que domina o país.


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