A Metamorfose

maio 6, 2009

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Em A Metamorfose acompanhamos a vida de um caixeiro-viajante de nome Gregor Samsa que, após uma noite de “sonhos intranquilos”, vê-se transformado num inseto grande e monstruoso, dotado de inúmeras patas, um par de antenas e costas duras como couraça (à mente, vem a imagem de uma barata, embora isso nunca seja corroborado pelo texto). Samsa, todavia, exibe uma naturalidade ímpar ao fato, preocupando-se solemente com a insatisfação do seu chefe perante o seu atraso nesse dia em específico.

Contudo, o entorpecimento excêntrico com o qual Gregor encara a sua nova condição não é compartilhado pelos seus familiares, nem com o gerente da firma para qual trabalha que foi à sua casa demandando explicações. Todos se mostram horrorizados com a sua aparência, o gerente foje desesperadamente, e o pai obriga Samsa voltar para seu quarto, sob a ameaça de violência física.

A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos

A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos

Desse ponto em diante, somos expostos às lucubrações do protagonista quanto à sua nova condição, à dinâmica familiar que se costura e impera na família e ao progressivo distanciamento e repulsa que a sua família passa a nutrir por ele, culminando no total isolamento do filho e ao desejo de se ver livre dele, confortando-se na ideia de que, afinal, aquele ser grotesco não poderia possivelmente mais ser o filho deles.

A Metamorfose apresenta uma leitura concisa e engajante, dotada de um humor inusitado e orgânico, justificado pela maneira indiferente com a qual Samsa encara o seu novo estado. Embora curto (a edição da Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone, conta com meras 102 páginas, das quais 85 são da história propriamente dita), o romance dá margem a diversas interpretações para a situação inusitada do seu protagonista e o que Kafka pretendia com isso. Uma crítica ao capitalismo? Um estudo da hipocrisia humana? Uma alusão à sua própria dinâmica familiar (é notória a problemática relação de Kafka com o pai)?

A Metamorfose se configura como um dos raros trabalhos de Kafka publicados anteriormente à sua morte, tendo-lhe rendido, inclusive, o Prêmio Fontane de Literatura – entregue a ele por Carl Sternheim, dramaturgo e famosos expressionista alemão – e por ser o mais longo dos seus contos (ainda assim, escrito em apenas vinte dias!). É possível lê-lo, na íntegra, aqui.

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Sinédoque, Nova York

maio 4, 2009

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Um dramaturgo hipocondríaco está sufocado com sua nova obra-prima: uma réplica em tamanho real de Nova York em um galpão, enquanto tem que conviver com as mulheres de sua vida.

Em seu novo alter-ego (Caden Cotard), Charlie Kaufman tenta nos mostrar a angústia da morte imediata e o egocentrismo de sua personagem. O dramaturgo não se preocupa quando suas mulheres desaparecem de sua vida ou quando os anos se passam. Preso a si mesmo, acha que o tempo não o deixará para trás e, sim, que estará sempre à frente. Dessa forma, Caden resolve criar sua própria Nova York, em uma tentativa megalomaníaca de se tornar Deus.

Como Deus de seu próprio mundo, ele comanda e escolhe o que cada um deve fazer, sempre seguindo a realidade dos eventos que se antecederam até a peça tornar-se, em dado ponto, o presente da vida de Caden. Continue lendo »


Os Leões de Bagdá

maio 3, 2009

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Os Leões de Bagdá remete, a princípio, a O Rei Leão, famosa animação da Disney, por também ser protagonizado por leões com comportamentos homólogos ao do Homem, e por um dos seus personagens – o infante do grupo, Ali – ser claramente inspirado no jovem Simba. Essa impressão, todavia, logo se dissipa quando o leitor é posto a presenciar, em caráter de flashback, uma forte cena de estupro de uma de suas protagonistas, a hoje idosa Safa. Posteriomente, as cenas de violência gráfica e o semblante dos corroboram: este não é um livro para crianças.

Os Leões de Bagdá é uma fábula de forte tom político que narra o cotidiano do grupo de lões do título, que enfim alcançam a tão almejada liberdade quando o zoológico em que se encontram é bombardeado e destruído por caças americanos. A trama, então, muda de ambiente; do zoológico para a destroçada cidade de Bagdá, onde eles se virão forçados a superar muitos empecilhos e desafios se quiserem sobreviver, mostrando que a tão sonhada liberdade pode vir com um preço alto demais. Continue lendo »


Batman – A Piada Mortal

maio 2, 2009

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Em A Piada Mortal, Alan Moore (Watchmen, V de Vingança) e Brian Bolland desconstruíram – e, no processo, redefiniram – a relação entre dois dos personagens mais emblemáticos das HQs: Batman, o Cavaleiro das Trevas de Gotham City, e Coringa, o Palhaço Psicótico. Vistos até então como antíteses um do outro, Moore e Bolland estabeleceram um paralelismo inédito entre os dois, visualizando-os não como seres opostos, mas, sim, como o mesmo lado de uma moeda observada de ângulos diferentes, partilhando de um mesmo elemento em comum.

Um dia ruim.

Para Batman – ou melhor, Bruce Wayne – esse “dia ruim” se manifestou na forma do assassinato de seus pais por parte de um assaltante ordinário, quando ainda uma criança; para o Coringa, na forma da morte de sua esposa grávida num acidente industrial, temperado pelo seu próprio fracasso profissional e pessoal.

Como consequência, Bruce optou por seguir o caminho do vigilantismo, adotando o semblante do ser que outrora mais temeu – o morcego – visando perpretar o mesmo medo inefável da infância na pele dos criminosos; o Coringa escolheu abraçar a loucura nua e crua, a negar ruidosamente todas as convenções e normais sociais que costumavam castrá-lo, a afastar-se o tanto quanto possível daquele ser patético e fracassado que costumava ser, tratando o passado como um vespeiro a se evitar.

"Basta um dia ruim para reduzir o são são dos homens a um lunático"

"Basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático"

Tais traumas foram instrumentais para delinear as suas vindouras personalidades de herói e vilão, as quais são, no fundo, meros subterfúgios, portos seguros contra toda a dor, desespero e vazio que os acometem. A diferença primodial entre os dois – e o quê, de certa forma, os define como algozes – é que enquanto o Coringa reconhece o aspecto escapista de sua condição, inclusive se gabando dela, Batman se nega a enxergar o absurdo que representa a idéia de um homem correndo por ai vestido de morcego, escondendo-se por detrás de frágeis racionalizações, procurando imprimir um propósito ao que faz e como faz.

Para o Coringa, as bases que sustentam e guiam a nossa sociedade são frágeis como um castelo de cartas, e que basta um pequeno sopro para fazê-la desmorononar e transformar o mais ordinário dos homens em alguém como ele. Que nossas noções de ordem e sanidade são desprovidas de significado real, meros véus que encobrem a realidade crua da vida. E é a sua tentativa de provar o seu ponto que se trata A Piada Mortal. Continue lendo »


Jeff Buckley

abril 25, 2009

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banner_musicabuckley-01Jeff Buckley é um daqueles músicos que teve uma passagem breve, tanto pela vida quanto pelo sucesso, mas que de alguma forma deixaram uma marca pessoal na história da música. Um dos raros casos de filhos de músicos famosos que possuem talento na mesma área de atuação de seu pai, Jeff é filho de Tim Buckley, músico conhecido por utilizar sua voz como principal instrumento de trabalho, cuja carreira abrange estilos como o pop, o folk e o rock experimental.

Interessante notar que o contato entre pai e filho foi bastante reduzido, tendo Tim visto seu filho apenas uma vez após se divorciar de sua mãe. Apesar de ter seguido o caminho da música, influenciado principalmente por sua mãe, uma pianista clássica, e seu padrasto, que lhe apresentou logo cedo a música de Led Zeppelin, The Who, Jimi Hendrix e Pink Floyd, inicialmente Jeff Buckley optou pelo posto de guitarrista, se recusando a cantar. O maior motivo era evitar comparações com seu pai, e tentar conquistar fama por seus próprios méritos.

Ironicamente, a ascensão ao sucesso veio após aceitar um convite para cantar num show tributo à Tim Buckley. Segundo Jeff, o objetivo de participar de tal tributo não era tentar conseguir fama à custa do nome de seu pai, mas sim resolver alguns problemas de ordem pessoal. Após o concerto, passou a se apresentar regularmente no café Sin-é no East Village de Nova Iorque. Seu repertório consistia de covers de rock, folk, R&B, blues e jazz, com a aparição constante das músicas em que trabalhava para seu lançamento próprio e que já haviam aparecido no demo Babylon Dungeons Sessions.

Grace

Grace

Os shows que fazia no Sin-é logo atrairam a atenção das gravadoras, anciosas por ter um talento como o seu constando em seu catálogo de artistas. Jeff assinou um contrato com a Columbia Records, que logo tratou de lançar no mercado o disco Live at Sin-é, retrato das apresentações de Buckley nesse período. Em 1994, dois anos após a assinatura do contrato, durante a turnê de divulgação do disco ao vivo, foi lançado o único disco de estúdio oficial de sua carreira: Grace.

O grande mérito de Grace não é somente apresentar o ótimo vocal e a excelente capacidade de interpretação que Jeff Buckley possuia, mas sim ter a cara de um álbum não de um artista iniciante, mas sim de alguém já bastante experiente na área. Grace é um dos poucos álbuns que abrem não só com duas ou três faixas excelentes, mas sim um que consegue manter esse ritmo por suas 7 primeiras faixas. Para um disco de 10 faixas, ainda mais de um artista iniciante, isso é no mínimo surpreendente.

Díficil falar de uma faixa específica que mereça atenção, pois o disco é daqueles que merece ser ouvido do começo ao fim, sem interrupções. Mas devo citar, como minhas favoritas, a faixa de abertura, Mojo Pin, a extremamente tocante Last Goodbye e a emocionante Lover, You Should’ve Come Over. Também vale citar a versão de Hallelujah, escrita por Leonard Cohen e a faixa Eternal Life. Em 2004, o disco foi relançado em sua Legacy Edition, contendo versões alternativas para algumas músicas, além de adicionar algumas gravações de estúdio não utilizadas com material inédito.

buckley-03O trabalho de divulgação de Grace seguiu por um ano e meio após seu lançamento. Apesar de suas vendas lentas, o álbum alcançou o disco de ouro na França e Austrália nos dois anos seguintes a seu lançamento. Em 2002, finalmente atingiu o disco de ouro nos Estados Unidos e no mesmo ano atingiu seis vezes o disco de Platina na Austrália. Após o fim da turnê, em 1996, Buckley começou a trabalhar em seu segundo álbum, intitulado My Sweetheart The Drunk, que nunca seria concluído.

Na noite de 29 de maio de 1997, enquanto esperava que sua banda voasse até o estúdio em Memphis onde estavam trabalhando, Jeff Buckley foi nadar no Wolf River Harbor, acompanhado pelo roadie Keith Foti. Após o roadie ter se afastado, para evitar que o rádio e a guitarra de Buckley se molhassem, notou que este havia sumido. Apesar dos esforços de equipes de resgate, seu corpo foi encontrado somente no dia 4 de junho.

A morte de Jeff Buckley, como a de todo artista promissor cuja vida é interrompida antes do previsto, não significou o fim de lançamentos com seu nome. Foram lançados diversos discos ao vivo, além das gravações não finalizadas de My Sweetheart the Drunk. Além disso, tanto Grace quanto Live at Sin-é foram relançadas com diversos extras, nas chamadas Legacy Edition. Apesar de soar como oportunismo por parte da gravadora (o que não deixa de ser em parte), o lançamento desse material só mostra uma vez mais o talento que Buckley possuia, que com o tempo poderia atingir níveis ainda maiores.

Em meio à diversos artistas descartáveis que surgiram na década de 1990, Buckley merece destaque pelo sua qualidade, e por não ter se rendido à moda do grunge, tão presente nessa época. Isso talvez explique a relativa falta de sucesso que obteve durante sua curta carreira, pois se recusava a seguir tais modismos. Recentemente seu trabalho vem sendo redescoberto, principalmente devido ao lançamento das Legacy Editions, que finalmente estão trazendo o tão merecido reconhecimento que Jeff Buckley não teve durante a vida.


Fell, Vol.1: Cidade Brutal

abril 22, 2009

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As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar. A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e putas olharão para cima, gritando “salve-nos”… e, do alto, eu vou sussurrar “não’.“.

O comentário acima foi tecido por Rorschach na abertura de Watchmen. A cidade a que ele se refere é Nova Iorque, mas poderia muito bem se aplicar ao passado de Snowtown. Sim, ao passado. No presente, a previsão apocalíptica de Rorschach se concretizou e as pessoas não mais clamam por salvação, aceitando com resignação seus destinos.

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Neil Gaiman – Coisas Frágeis

abril 21, 2009

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coisas-01Apesar de ter adquirido fama mundial com seu trabalho na série em quadrinhos Sandman, nos últimos anos Neil Gaiman mudou seu foco para a área da literatura, tendo publicado romances como Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi, atualmente trabalhando em um livro de não-ficção sobre suas viagens pela China. Publicado em 2008 pela Conrad, Coisas Frágeis reúne 9 contos do autor, nos quais Gaiman explora diversos gêneros narrativos, mostrando o porquê de ser considerado como um dos melhores escritores de sua geração.

Os destaques da coletânea ficam para Um Estudo Esmeralda, que mistura o universo estritamente racional de Sherlock Holmes com o de H.P. Lovercraft, povoado de seres irracionais e mistérios indecifráveis. É impressionante como Gaiman consegue conciliar universos tão contraditórios, e como sua narrativa se assemelha à de Sir Arthur Conan Doyle. Para quem já leu algum volume de Sherlock Holmes, as referências e personagens utilizados serão imediatamente reconhecíveis.

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