Fell, Vol.1: Cidade Brutal

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As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar. A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e putas olharão para cima, gritando “salve-nos”… e, do alto, eu vou sussurrar “não’.“.

O comentário acima foi tecido por Rorschach na abertura de Watchmen. A cidade a que ele se refere é Nova Iorque, mas poderia muito bem se aplicar ao passado de Snowtown. Sim, ao passado. No presente, a previsão apocalíptica de Rorschach se concretizou e as pessoas não mais clamam por salvação, aceitando com resignação seus destinos.

Snowtown é uma cidade vil, violenta e decadente, onde a neve acoberta a sujeira e os cadáveres. Seus habitantes são seus reféns. O conforto é uma miragem, a justiça é uma teoria sem valor prático, o Estado é uma instituição desprovida de influência, vista com desdém por aqueles que eram supostos temê-la. Alguém uma vez disse que “a esperança é a última que morre”. No caso de Snowtown, ela já está num estágio avançado de putrefação.

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Todavia, ainda que Rorschach se recusasse a salvá-la, há pessoas que, mesmo a contra-gosto, dispõem-se a fazê-lo. É o caso do detetive Richard Fell, transferido para essa cidade esquecida por Deus devido a um incidente nebuloso do seu passado, envolvendo seu ex-parceiro. Fell é dotado de uma percepção aguçada, remetendo, de certa forma, a uma versão mais modesta e impulsiva de Patrick Jane, protagonista de The Mentalist. Ele rapidamente percebe que Snowtown é diferente, visto que em uma semana de trabalho na cidade se feriu mais em serviço do que em toda a sua carreira fora dela.

Fell – a HQ, não o personagem – é roteirizada por Warren Ellis (Planetary) e ilustrada por Ben Templesmith, que, aqui, vê o apogeu da sua carreira como desenhista, com um trabalho intenso, distinto e em harmonia sobrenatural com a escrita afiada de Ellis, transmitindo com precisão a atmosfera opressiva da cidade e seu clima noir e frequentemente repulsivo, assistido por uma rica e vibrante palheta de cores que nunca falha em definir o tom apropriado às histórias.

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Cada capítulo de Fell apresenta uma trama distinta, com começo-meio-fim. Como se isso por si só já não configura-se um desafio a qualquer escritor, neste caso a situação é agravada pelo fato de que uma edição normal da revista conta com meras 16 páginas, em oposição às 24 páginas de um gibi comum. O motivo é a acessabilidade. Com o número reduzido de páginas, cada edição de Fell chega ao mercado pela bagatela de UR$1,99, permitindo ao leitor ter uma pequena obra de arte nas mãos pelo trocado do pão.

A narrativa de Ellis é surpreendemente fluida e “completa”, em momento algum dando a impressão de ser prejudicada pelas restrições de espaço, mostrando um desenvolvimento e conclusão satisfatórios para todos os casos introduzidos. Aliás, o mérito maior do inglês é conseguir escrever dentro de um gênero tão saturado – o policial – e ainda assim obter histórias engajantes e que são um frescor aos olhos.

No Brasil, a editora Landscape publicou um encadernado abrangendo as oito primeiras edições, entitulado Cidade Brutal, no formato 16 x 24 cm, com 152 páginas em papel LWC. Apesar de alguns erros de revisão aqui e acolá, é uma edição caprichada, tendo destaque a capa, com reservas de verniz, que realçam ainda mais a beleza da arte de Templesmith.

2 respostas para Fell, Vol.1: Cidade Brutal

  1. Breno disse:

    Ben Templesmith é um gênio com suas mãos, Richard Fell é o cara mais foda do mundo, sua “namorada”, Maiko (apesar de louca) é uma mulher apaixonante e Fell (a revista) é uma puta obra de arte que eu fico muito feliz em ter lido.

    Só queria destacar que o clima da cidade de Snowtown não é muito noir, na verdade não existe uma descrição sem usar de palavras de baixo calão para essa cidade que, diferente do que você disso, não foi esquecida por Deus, ela simplesmente existe sem o conhecimento dele.

    Já falei um pouco sobre Snowtown em um post para o blog do Meia, vai o link >> http://blog.meiapalavra.com.br/2009/02/01/cidades/

  2. rafakrush disse:

    Estou lendo! Os desenhos são magníficos e o enredo muito bom também! Foi difícil encontrar um material que chamasse a atenção de um grande fã de Constantine e histórias policiais! =D

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