Fear of a Blank Planet

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Fear of a Blank Planet é o nono álbum de estúdio da banda de rock progressivo transmorfa Porcupine Tree, liderada pelo talentosíssimo Steven Wilson (Insurgentes, Blackfield), além de Gavin Harrison (bateria), Colin Edwin (baixo) e Richard Barbieri (teclados/sintetizadores). Dois guitarristas renomadíssimos da cena progressiva também marcaram presença no projeto: Alex Lifeson e Robert Fripp, respectivamente, das bandas Rush e King Crimson.

Lançado em Abril de 2007, é considerado por muitos o trabalho mais denso, crítico, ambicioso e provocativo da carreira da banda, propondo-se a “dissecar” e discutir os efeitos da cultura moderna sobre a juventude de hoje em suas consequências mais evidentes: apatia, alienação, comodismo, passividade, indiferença; que, por sua vez, acarretam a ausência total de rumo, ideologia e significados. Vidas vazias, um planeta vazio.

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O CD abre com a faixa homônima, um épico de 7min30s que nos introduz o protagonista (sim, o álbum é conceitual): um jovem “terminalmente” entediado, constantemente exposto a estímulos visuais (TVs) e sonoros (música), mas nunca reagindo verdadeiramente a nenhum deles; encontra-se cada vez mais “desconectado” das pessoas e do mundo, refugiando-se em jogos eletrônicos e anti-depressivos para escapar da monotonia, ao mesmo tempo que questiona o quão “genuíno” é a si mesmo, e o quanto é resultado das drogas que toma; em suma, se ele realmente está ali.

Já a faixa seguinte, “My Ashes”, mostra o nosso herói (se é que ele pode ser chamado assim) visivelmente amargurado, divagando sobre suas decisões passadas, como, mesmo com todas as desilusões e rejeições, ele “sempre voltava por mais”. Aceitou passivamente ser o bode expiatório de todos os problemas dos seus pais, desperdiçando sua juventudade, em busca de um singelo sinal de afeição, um beijo que o “curaria de sonhar”, que asseguraria o seu retorno apesar de tudo.

No presente, tornou-se um indivíduo recluso que se abriga no seu próprio mundo, cuja inocência, felicidade e sonhos se tornaram uma única massa cinzenta e homogênea, impossível de ser retornada ao que era antes, a derramar sobre memórias de outrora, em visões nostálgicas que lhe remetem a um passado longínquo de felicidade, perdendo-se nas coisas não vistas, não feitas, não sentidas.

A música a seguir, a mais ambiciosa de todo o álbum, com cerca de dezoito minutos, dividida em três atos ou capítulos, cada um a narrar um período distinto na vida do personagem, é a composição mais longa da banda desde The Sky Moves Sideways, de 15 anos atrás: “Anesthetize”.

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No primeiro ato, acompanhamos o protagonista num conflito interno entre aquilo que é e o que ele é suposto ser. Realidade versus aparência. Dor genuína versus felicidade fingida. A necessidade de se ‘encaixar’ no status quo regindo as suas ações, sobrepujando a gritaria da sua consciência. O refrão engenhosamente remete ao de Fear of a Blank Planet até certo ponto, quando é subitamente cessado pelo próprio personagem mandando a si mesmo se calar, ser feliz, parar de frescura.

No segundo ato, vemos o personagem se conformar com a ‘normalidade’ imposta a si ao invés de lutar para mudá-la, tornando-se ainda mais disperso, entediado, apático e cogitando o suicídio, enquanto vagueia perdido por shoppings e supermercados como um zumbi, saciando desejos consumistas irrelevantes, perguntando-se no quê, afinal, o dinheiro pode lhe satisfazer. O instrumental emula o estado de espírito do personagem, soando metálico, frio, indiferente e repetitivo (imagine um cover ruim de Meshuggah).

O terceira e último ato é o mais abstrato dos três, propositadamente ambíguo; possivelmente um flashback nostálgico do garoto relembrando os últimos momentos felizes que passou com a sua amada numa praia até ela lhe dar as costas, sendo “roubada” dele, enegrecendo o Sol, ao qual ele esteve até a pouco sorrindo. Também se pode extrair da letra a idéia que ele admira as ondas – a sua efemeridade, encerrada de maneira serena na costa, num processo que se repete ad infinitum.

“Sentimental” retoma o tom sombrio das primeiras músicas, um desabafo que evidencia a insegurança do personagem em encarar o mundo adulto das responsabilidades, preferindo se apegar ao comodismo passageiro da adolescência.Uma criança, taciturna e entendiada, rejeitando o passar dos dias.

Em “Way Out of Here”, todos os problemas pessoais e amorosos retratados nas quatro faixas anteriores convergem e explodem, e ele jaz nas trilhas de um trem contemplando o suicídio. Janelas trancadas, cortinas fechadas, pistas disfarçadas, carro descartado. Pronto para fugir e desaparecer.

Essa música foi inspirada no caso real de uma adolescente norte-americana de nome Arielle Daniel, que, em 12 de Novembro de 2005, aos 17 anos, morreu atingida por um trem junto com uma amiga. De notável, há o fato de que ela era uma tremenda fã da banda, e fundadora da página do grupo no MySpace. Ela estava supostamente ouvindo o som deles no seu iPod quando o acidente ocorreu.

A partir de “Sleep Together”, o encerramento, é possível deduzir dois fins possíveis à história, dada a ambiguidade, tanto lírica quanto sonora: em um, o nosso herói, mergulhado nos estágios finais da depressão, emerge decidido a mudar, a apagar todos os traços do seu passado, desligando-se do seu futuro, escapando do seu destino. No outro, é o inverso: desiste, sucumbe à tentação de “dormir para sempre”, deixando todas os seus traumas para trás, fugindo do risco de, mais uma vez, afogar-se em torpor. Por mais dissonantes que soem, a música dá espaço a ambas interpretações.

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One Response to Fear of a Blank Planet

  1. Talles disse:

    Esse disco é muito bom mesmo. Deles eu também recomendo o ‘In Absentia’.

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