Vamos falar de sexo?

Kinsey - Vamos falar de sexo?

Tive o primeiro contato com um estudo sobre sexo através do filme  Kinsey — Vamos falar de sexo (EUA, 2004), visto alguns dias atrás. Nele, a vida do professor Kinsey é contada aos poucos, à medida em que responde às perguntas de uma entrevista sobre suas práticas sexuais, parte componente do estudo dirigido por ele sobre a sexualidade. Nascido em Hoboken, no verão de 1894, filho de pais metodistas ortodoxos, criado sob uma rígida moral religiosa, que toldou-lhe o pensamento e as ações durante anos em sua vida, Alfred Charles Kinsey graduou-se em biologia e psicologia pelo Instituto Bossey, contrariando a vontade do pai, que desejava que o filho seguisse carreira no campo da engenharia. Continou seus estudos em Harvard, onde doutorou-se, defendendo sua tese sobre a diversidade biológica de uma certa espécie de vespa.

Atuou como professor-assistente do departamento de zoologia da Universidade Bloomington, Indiana, por cerca de dezesseis anos, dedicando-se à entomologia (área da ciência que estuda os insetos). Casou-se com Clara McMillen em 1921, com quem teve quatro filhos. Em parte, o filme de 2004 atribui à sua relação amorosa com Clara muito do crédito de sua dedicação ao estudo do comportamento sexual humano, o qual iniciou em 1935, tendo sido então financiado pela Fundação Rockefeller. Os métodos empregados por Kinsey, entrevistas detalhadas com milhares de pessoas de todas as partes do território dos Estados Unidos, revolucionaram os parcos, insuficientes e moral e religiosamente tendenciosos estudos sobre sexo feitos até então.

Em 1948 foi publicado o primeiro livro com os resultados parciais dos estudos de Kinsey, Comportamento Sexual do Homem (Sexual Behavior in the Human Male), causando furor na sociedade americana, sendo amplamente comentado pela mídia. A partir da publicação dessa obra, iniciou-se nos Estados Unidos um debate mais sério sobre a sexualidade, que se intensificou em meados de 1960, com a Revolução Sexual. Em 1953, foi lançado o segundo volume, abordando a sexualidade das mulheres: Comportamento Sexual da Mulher (Sexual Behavior in the Human Female). Foi esse o livro que mais chocou a sociedade americana, ao pôr em cheque diversas de suas crenças em relação ao sexo, particularmente aquelas relacionadas às famílias, especialmente os fatos, por exemplo:

  • De que 92% dos homens e 62% das suas mulheres se masturbavam. Hoje em dia algo assim não é nenhuma novidade. “Descabelar o palhaço” ou “explorar a caverna” é considerado aceitável pela maior parte da população (essa é uma afirmação bastante generalizada e, portanto, pode estar errada), com exceção de certos grupos (geralmente instituições) que a condenam;
  • De que 37% dos homens e 13% das mulheres já tinham tido uma relação homossexual. Tente se imaginar como uma mãe ou pai de família tipicamente conservador que, por algum motivo, abre um livro sobre comportamento sexual e se depara com a afirmação de que mais de 1/4 da população masculina de seu país já teve alguma espécie de relacionamento gay. Das duas uma: ou você vai se sentir excluído do resto da turma e correr atrás do prejuízo ou temer pelas futuras gerações (incluindo seus filhinhos!), possivelmente desacreditando e condenando (e se alarmando) exageradamente com a possibilidade de alguém que você conheça já ter tido relações homo. Acredito que, no caso da sociedade estadunidense da época, a segunda opção seja a mais provável.

Kinsey aborda em seus estudos assuntos considerados imorais, como os já citados homossexualismo e masturbação, e também o incesto e a pedofilia. A investigação de tais aspectos da sexualidade humana rendeu-lhe críticas de diversos segmentos da sociedade, que, mesmo nos dias de hoje, acusam-no de incentivar todo o tipo de “violação à moral”. Com o lançamento de Kinsey — Vamos falar de sexo, reacendeu-se o debate sobre os trabalhos do professor de Bloomington, bem como protestos contra a sua divulgação através do cinema. São também alvos de críticas alguns dos métodos pouquíssimo ortodoxos utilizados por ele, como a gravação da relação sexual entre seus colaboradores e a posterior análise das mesmas, buscando descobrir certos tipos de padrões presentes recorrentes na sociedade americana.

Uma das mais interessantes conclusões às quais Kinsey chegou, graças à análise dos vídeos produzidos durante as pesquisas e sua comparação com outros dados, foi que a típica mulher norteamericana dos anos 40 era induzida, durante toda a vida, a buscar o estímulo sexual somente através da vagina, sendo a obtenção de qualquer prazer através do estímulo do clítoris, grandes e pequenos lábios estigmatizada socialmente. O sexo oral era igualmente condenado, sendo associado a ele uma diminuição (fantasiosa) da fertilidade masculina.

Em relação à pedofilia, a grande polêmica a envolvendo deve-se ao fato do professor ter entrevistado inúmeros pedófilos durante o trabalho, elaborando um controverso esquema sobre a sexualidade das crianças, segundo o qual:

  • Com 11 meses um bebê teria uma média de dez orgasmos em uma hora;
  • Com 7 anos uma menina teria uma média de três orgasmos em uma hora;
  • Com 14 anos um menino poderia chegar a dezenove orgasmos por hora.

Trabalhar com essa espécie de dado, devemos confessar, é realmente um tanto chocante à maior parte de nós. Admito que é uma parte tanto do filme quanto do trabalho de Kinsey que me causou certo asco, mas é também compreensível que ele lide com esse tipo de informação, uma vez que diz respeito à sexualidade e negligenciá-la seria pura e simplesmente negar um determinado aspecto (culturalmente repulsivo, mas ainda assim um aspecto) da humanidade, tornando suas conclusões incompletas.

A contribuição científica de Alfred Kinsey muitas vezes é desmerecida, ao ser refutada com base em crenças baseadas em um conservadorismo descompromissado com o conhecimento, que se ocupa de seus próprios problemas internos, da defesa cega de si mesmo e da sobrevivência patética de seu rígido sistema moral. É inegável a importância dos estudos do professor, tanto para o campo da sexologia quanto no que diz respeito ao inovador e vasto uso do recurso das entrevistas e sua posterior análise estatística. Sua influência no processo de formação da sociedade atual vai muito além do estudo do nosso comportamento sexual; Kinsey contribuiu para mudar o modo como lidamos com nossas pulsões sexuais, analisando objetivamente a questão e coletando dados duradouros, que orientam ainda hoje pesquisadores do mundo todo.

APÊNDICE

Moral. Considero “moral” nesse texto qualquer manifestação de costumes de determinada sociedade, que consiste em um aspecto restrito de sua cultura; ou seja: algo inerente a determinado grupo social, não uma “totalidade” para todo o gênero humano. Um exemplo de moral seria a necessidade, em nossa sociedade, de usarmos roupas quando estamos em convívio direto com outras pessoas, o quê, para certos povos indígenas, por exemplo, não é uma norma. O que faz parte da moral de determinada cultura, para outra pode não significar nada. Em parte, é difícil para nós lidarmos com a moralidade, uma vez que precisamos (desesperadamente) impôr nosso próprio código aos outros, aceitando-o como o único irrevogavelmente correto e “bom”.

Ética. Pelo amor da filosofia, não confunda moral e ética, “a ética é definida como a teoria, o conhecimento ou a ciência do comportamento moral, que busca explicar, compreender, justificar e criticar a moral ou as morais de uma sociedade.” [Fonte]

Interessou-se pelo assunto? Leia mais sobre os trabalhos de Alfred Kinsey neste artigo da Wikipédia, em português ou em inglês.

Uma resposta para Vamos falar de sexo?

  1. Daniela disse:

    A sexologia é uma área que me atrai muito, sempre busco informações a respeito e me interessou este trabalho, tentarei ver o filme. Bom post!

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