Black Hole

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Seattle. Anos 70. Uma doença sem nome, disseminada pelo contato sexual, assola os jovens. Em comum, desenvolvem deformidades. Alguns são sortudos e apresentam apenas discretas protuberâncias na pele, facilmente escondíveis, enquanto que outros passam a se assemelhar mais a monstros do que a seres humanos; a esses, resta apenas um exílio auto-imposto, vivendo no mato com seus iguais como animais.

Black Hole é um trabalho autoral de Charles Burns (cujo currículo inclui ilustrações pro NY Times e outras revistas, e alguns quadrinhos independentes), que levou doze anos para completar a obra, a respeito da sua própria juventude, da descoberta das drogas e do sexo.

A grosso modo, Black Hole se trata de uma fábula; mas uma fábula perturbadora, como um conto de terror psicodélico. A história funciona como uma extensa e rica metáfora sobre a adolescência, os medos, inseguranças e desiluções nela inclusas, ora flertando com o mais puro horror, ora com o total surrealismo, como, por exemplo, quando os personagens entram em “transe” devido às drogas, ou simplesmente dormem e têm pesadelos: um panomara de imagens desconexas se forma à frente dos seus olhos, junto com emoções agridoces e sinestésicas. Após sucessivas leituras, notar-se-á que Burns deixa “pistas” (leia-se: spoilers) acerca de futuros acontecimentos nesses momentos de psicodelia.

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Esteticamente, a HQ também impressiona pelas diptychs que abrem cada capítulo, geralmente consistindo de um objeto inanimato (i.e detritos) e do personagem em foco no capítulo em questão; notar-se-á, após repetidas leituras, que as imagens são geometricamente semelhantes e podem ser interpretadas como sendo uma “espelho” da outra. No terceiro capítulo, por exemplo, o diptych consiste de uma garrafa de vidro quebrada ao meio e uma personagem deitada numa barraca, numa posição quase fetal, de forma similar à dita garrafa. Outros paralelos – esses, de caráter mais metafórico – podem ser traçados. O vazio da garrafa representa a solidão que a própria personagem sente, assim como o fato de ela estar quebrada retrata o seu estado emocional.

Quanto à trama, ela é dividida em dois núcleos distintos, que convergem no final. Chris Rhodes é uma jovem atraente que fica “bichada” (contrai a dita doença) após transar desprotegida com um paquera que conhecera numa festa (que supôs que ela soubesse da sua condição). Ela passa a trocar de pele, como uma cobra; ele, tem uma segunda boca na extremidade final do pescoço. Eventualmente se apaixonam e se exilam da cidade, vivendo na floresta, como um casal.

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Keith Pearson é um jovem comum que curte se drogar com os amigos e que nutre uma paixão secreta por Chris, a qual permanece intacta mesmo depois de ouvir sobre a estranha situação dela. Na casa de uns vendedores de drogas, ele conhece uma artista sem nome que lhe causa um tremendo impacto – tanto pela sua arte visceral quanto pela sua própria fisionamia, com uma pequena cauda no final da sua coluna vertebral (o que lhe deixa inusitadamente… excitado). Devido a um ataque de ansiedade provocado pelas drogas, ele se refugia na floresta, onde encontra os “bichados”, formando um vínculo inusitado com eles.

Todavia, algo estranho anda acontecendo: um a um, membros do dito grupo desaparecem sem deixar rastros – exceto por um membro decepado ali e outro acolá – e estranhas gravuras de cabeças de boneca com corpos de ossos começam a aparecer amarradas às árvores. Alguém os está caçando, e eles não sabem por quê. Será um maníaco, um serial killer? Ou poderia ser alguém do próprio grupo que está enlouquecendo?

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E mais: o que é a tal doença? Qual é a sua causa? Qual é a sua origem? Por que ela afeta as pessoas de forma tão variada? O que está sendo feito a respeito para combatê-la?… são perguntas que eventualmente surgem e é natural esperar por respostas. Mas isso é um erro. A natureza da doença é irrelevante – ela é um mero artifício do roteiro para acentuar o isolamento, frustação e desilução típicos da adolescência que os personagens estão experimentando num contexto tão macabro quanto possível.

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No Brasil, a graphic novel foi publicada em duas partes – Introdução à Biologia e O Fim, ambas com o mesmo personagem na capa, antes e depois de ser “bichado” – em formato 16 x 23 cm, papel LWC e capa dura. Ausente de extras.

A obra foi vencedora de um Eisner Award (Melhor Álbum Gráfico) e de nove Harvey Awards (dentre eles, Melhor Cover e Melhor Álbum Gráfico).

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