Retalhos

Junho 26, 2009

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Craig Thompson cresceu numa família pobre e extremamente religiosa, num ambiente de opressão e de temor a Deus, forçado a dividir a cama com o irmão até a adolescência, vítima frequente de bullying escolar e da intransigência de seus pais, que nunca lhe deram direito a ter uma opinião. Isso, somado à lavagem cerebral religiosa pelo qual passou, tornaram-no um crente fervoroso, fazendo-o renegar o seu dom para o desenho e se dedicar a uma vida “em Cristo”.

Todavia, num retiro para jovens cristãos (que mais se assemelhava a uma confraternização entre os mauricinhos da cidade, pra ser honesto), ele se depara e socializa com um grupo de párias tão deslocados quanto ele; e, entre eles, uma jovem chamada Raina lhe chama a atenção. Expressiva, jovial, vívida e independente, em muitas maneiras a sua total antítese. Tais como dois corpos de cargas opostas, eles se atraem, num relacionamento que afetará ambos profundamente.

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Retalhos se assemelha a Fun Home no sentido de se tratar de uma auto-biografia com ênfase evidente em determinado aspecto da vida do autor; enquanto que em Fun Fome a relação de Alison com o pai é o foco, em Retalhos é a relação entre o protagonista (o autor) com seu primeiro amor (Raina, a moça na capa) que é abordada com mais profundidade.

Além disso, em comum as duas HQs também apresentam numerosas idas e vindas no tempo, costuradas por narrativas sólidas e engajantes, onde cada recapitulação (ou “flashback”) funciona para justificar as ações no presente por um viés psicológico ou para realçar certos traços comportamentais dos personagens e/ou seus estados de espírito. Notar-se-á, por exemplo, como a relação entre Craig e o irmão é retratada de forma intensa no começo da livro e gradativamente deixada de lado, culminando numa espécie de metalinguagem narrativa – conforme os irmãos, na vida real, distanciaram-se, a interação entre os dois, na HQ, também.

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Retalhos se trata de uma obra densa (são mais de 592 páginas), rica em metáforas e mensagens, que merece ser lida e relida várias vezes para ser apreciada em sua plenitude; lá fora, a obra venceu três prêmios Harvey (Melhor Artista, Melhor HQ e Melhor Cartunista), dois Eisner (Melhor Escritor/artista e Melhor HQ) e diversos outros, reforçando o reconhecimento ainda que tardio dos quadrinhos como mídia adulta em potencial.

No Brasil, foi editado pela recém-formada Cia das Letras., subdivisão da Companhia das Letras dedicada exclusivamente a quadrinhos alternativos, com um preço de capa bastante atrativo de R$49,90, baratíssimo para uma obra com quase 600 páginas de arte, papel de qualidade e excelente diagramação.


Neon Genesis Evangelion

Maio 16, 2009

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Quando surgiu, em 1995, Neon Genesis Evangelion representou uma revolução no que diz respeito a animes cujo foco são robôs gigantescos (mechas). Em vez de focar em alguma grande guerra entre duas nações ou apresentando os robôs como simples instrumentos para a ação humana, apresentava uma batalha contra inimigos de origem vaga, chamados de “Angels”, cada um nomeado conforme os anjos bíblicos. Os robôs em si também eram bastante diferentes, tendo um caráter até humano e imprevisível, pois podiam a qualquer momento perder totalmente o controle e agir por si próprios.

Lembro que o grande destaque dado na época pelos veículos especializados foi que Evangelion possuia diversas referências à filosofia e religião, além de explorar bem os conflitos psicológicos e as motivações de cada personagem. Também eram destaques os diversos mistérios e explicações dadas pela metade sobre qual a função real da NERV, o que eram os EVA’s e o que era o Projeto de Complementação Humana, só para citar alguns dos pontos que não são totalmente esclarecidos, apesar de algumas dicas que apontam para uma possível explicação. Mas estou divagando, vamos à sinopse da série.

O Segundo Impacto

O Segundo Impacto

No ano 2000 ocorreu o que ficou conhecido como o Segundo Impacto, um cataclisma global que praticamente destruiu a Antártica e causou a morte de metade da população humana. Oficialmente, o responsável por esse distúrbio que inclusive alterou o eixo de rotação da Terra foi o impacto de um meteoro, semelhante ao que teria causado a extinção dos dinossauros. A partir desse evento, é criada a organização chamada NERV, cujo propósito é derrotar seres conhecidos como Angels, e evitar o acontecimento de um Terceiro Impacto, que poderia trazer ao fim a vida humana no planeta.

A forma encontrada de combater os Angels foi a criação dos EVA’s, robôs gigantescos e único instrumento capaz de derrotá-los. Como seus pilotos, foram escolhidas crianças nascidas pouco após o Segundo Impacto. São elas, por ordem de convocação, Rei Ayanami, que pilota a unidade 0, Asuka Langley Souryuu, que pilota a unidade 02 e Shinji Ikari, responsável pelo controle da unidade 01. Os 26 episódios da série seguem mostrando as diversas batalhas com os Angels, as intrigas internas da NERV e os relacionamentos entre os personagens.

A cada episódio, vão aparecendo novas perguntas. O que foi o Segundo Impacto? Qual a real natureza dos EVA’s? Por que a NERV possui um Angel escondido em seu subsolo? Quais as reais intenções de Gendo Ikari e seu Projeto de Complementação Humana? Enfim, uma série de perguntas, cuja maior parte acaba ficando sem uma resposta definitiva.

Evangelion 02Assistindo à série agora, 14 anos após sua criação, fica claro que Evangelion não envelheceu muito bem em determinados aspectos. O desenvolvimento dos personagens, elogiado na época, parece algo muito simples e incompleto se comparado a diversas animações que vieram depois. Com algumas excessões, como a Major Katsuragi e a Doutora Ritsuko, parece que todos os outros tipos de personagens acabaram se tornando um clichê.

A animação da série, por outro lado, continua podendo ser considerada boa, especialmente nas cenas que envolvem lutas utilizando os EVA’s, algumas impressionantes até hoje, isso levando em conta que na época não haviam as facilidades proporcionadas pelo CGI atualmente. Apesar da qualidade da animação cair nos episódios finais, com muitas cenas sendo recicladas, é impressionante observar a qualidade geral do anime nesse quesito, ainda mais levando em conta as sérias restrições de orçamento que sofreu durante sua produção. A parte sonora também é outro destaque, com temas coerentes à cada situação e uso perfeito do silêncio quando necessário.

The End of Evangelion

The End of Evangelion

O grande problema da série original é justamente seu final. Enquanto até o episódio 24 a série segue uma ordem lógica, nos dois últimos acaba seguindo pelo caminho do nonsense, com um andamento confuso em que não se sabe exatamente o que está acontecendo. Para corrigir isso, em 1997 foi lançado o filme The End of Evangelion, que mostra o final real da série, substituindo os acontecimentos dos episódios 25 e 26.

Neon Genesis Evangelion continua ainda hoje como uma obra muito boa, e até certo ponto bastante coerente. As dúvidas não respondidas podem trazer algum incômodo, mas nada no nível de programas como Lost. O importante é só não deixar o culto que se criou ao redor da série influenciar sua opinião, já que infelizmente a série, apesar de bastante competente, está longe de ser genial.

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Tak Matsumoto Group

Maio 9, 2009

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Tak Matsumoto

Tak Matsumoto

Antes de falar desse projeto, é necessária uma pequena introdução sobre quem é Tak Matsumoto. Esse nome, que pode não significar nada para quem vive no mundo ocidental, é o líder/guitarrista/compositor/produtor de um dos grupos de maior sucesso do rock japonês, o B’z. Frequentemente citado como uma espécie de Aerosmith japonês, o grupo já vendeu mais de 80 milhões de cópias de seus discos só na terra do sol nascente. A razão de seu sucesso é a versatilidade de Tak, que toca jazz, blues, funk, metal e hard rock, tudo temperado com influências asiáticas.

Em 2003, decidido a fazer um projeto que soasse ao mesmo tempo com um pé no hard rock tipicamente americano, mas sem perder a influência japonesa, Tak chamou o cantor Eric Martin (Mr. Big), o baixista/cantor Jack Blades (Night Ranger, Damn Yankees) e o baterista Brian Tichy (Ozzy Ousborne, Slash’s Snakepit) para contribuir em um álbum.

tmgO resultado foi o primeiro, e até agora único, disco do Tak Matsumoto Group, intitulado simplesmente como TMG I. Para promover o álbum, houve uma pequena turnê ao redor do Japão, culminando com um show no lendário Budokan. Como Brian Tichy não poderia participar, foi chamado para seu lugar o baterista Chris Frazier, atualmente membro do Whitesnake. O registro dessa turnê pode ser visto no dvd Dodge The Bullet, lançado em dezembro de 2004, infelizmente restrito às terras japonesas.

O álbum tem como destaque principal a incrivel habilidade de Tak na guitarra, com riffs marcantes e linhas melódicas melhores do que muitos trabalhos da era de ouro do hard rock, os anos 80. Outro mérito foi trazer Eric Martin de volta ao campo onde atua melhor, isso é, no hard rock baseado em guitarras. O vocalista, que em sua carreira solo foca no lado mais pop e romântico, aqui apresenta uma performance digna de seus melhores trabalhos no Mr. Big.

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As músicas que se destacam são Oh Japan – Our Time is Now, que abre o álbum de maneira excelente, a pesada Kings for a Day, a oitentista Wish You Were Here e a oriental The Greatest Show On Earth. Vale ainda citar Trapped, a excelente Wonderland e Never Good-Bye, que fecha o álbum com chave de ouro e deixa aquela vontade de que o grupo tivesse produzido mais material.

Infelizmente não há sinal de que um novo disco do projeto possa surgir num futuro tão próximo. Tak Matsumoto continua com seu trabalho de sucesso no B’z, Jack Blades está de volta ao Night Ranger, e Eric Martin recentemente anunciou a volta do Mr. Big em sua formação original. Felizmente, por mais que o projeto tenha durado pouco, teve como fruto um excelente disco, recomendado principalmente para os fãs de hard rock na linha Mr. Big.


A Metamorfose

Maio 6, 2009

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Em A Metamorfose acompanhamos a vida de um caixeiro-viajante de nome Gregor Samsa que, após uma noite de “sonhos intranquilos”, vê-se transformado num inseto grande e monstruoso, dotado de inúmeras patas, um par de antenas e costas duras como couraça (à mente, vem a imagem de uma barata, embora isso nunca seja corroborado pelo texto). Samsa, todavia, exibe uma naturalidade ímpar ao fato, preocupando-se solemente com a insatisfação do seu chefe perante o seu atraso nesse dia em específico.

Contudo, o entorpecimento excêntrico com o qual Gregor encara a sua nova condição não é compartilhado pelos seus familiares, nem com o gerente da firma para qual trabalha que foi à sua casa demandando explicações. Todos se mostram horrorizados com a sua aparência, o gerente foje desesperadamente, e o pai obriga Samsa voltar para seu quarto, sob a ameaça de violência física.

A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos

A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos

Desse ponto em diante, somos expostos às lucubrações do protagonista quanto à sua nova condição, à dinâmica familiar que se costura e impera na família e ao progressivo distanciamento e repulsa que a sua família passa a nutrir por ele, culminando no total isolamento do filho e ao desejo de se ver livre dele, confortando-se na ideia de que, afinal, aquele ser grotesco não poderia possivelmente mais ser o filho deles.

A Metamorfose apresenta uma leitura concisa e engajante, dotada de um humor inusitado e orgânico, justificado pela maneira indiferente com a qual Samsa encara o seu novo estado. Embora curto (a edição da Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone, conta com meras 102 páginas, das quais 85 são da história propriamente dita), o romance dá margem a diversas interpretações para a situação inusitada do seu protagonista e o que Kafka pretendia com isso. Uma crítica ao capitalismo? Um estudo da hipocrisia humana? Uma alusão à sua própria dinâmica familiar (é notória a problemática relação de Kafka com o pai)?

A Metamorfose se configura como um dos raros trabalhos de Kafka publicados anteriormente à sua morte, tendo-lhe rendido, inclusive, o Prêmio Fontane de Literatura – entregue a ele por Carl Sternheim, dramaturgo e famosos expressionista alemão – e por ser o mais longo dos seus contos (ainda assim, escrito em apenas vinte dias!). É possível lê-lo, na íntegra, aqui.


O Senhor dos Reais: A Sociedade do Real (Final)

Maio 5, 2009

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O Senhor dos Reais

Para entender melhor esta parte, talvez você queira (na verdade, é provável que não) ler o primeiro e o segundo capítulo de O Senhor dos Anéis: Uma Festa Muito Esperada e A Sombra do Passado.

Leia as outras partes aqui.

Ah, sim, o Um! Bem, resumindo, digamos que Çauron queria ser passista quando criança e desfilar pela Nazgûls de Vila Matilde, mas, como era muito feio, não o deixaram fazer isso. Então, ele ficou com um complexo social muito grande e falsificou o Um com toda a purpurina da escola de samba, para fali-la e, de quebra, fazer com que aquela Nota governasse todos os outros Reais. Mas seu plano não fora bem planejado, porque os Três Reais dos mendigos não foram afetados pelo seu poder negro, e esses fugiram, porque eram miseráveis e não queriam se juntar ao gangbang… à gangzinha, quis dizer à gangzinha… de Çauron. Assim, a Última Resistência e Esperança que resta vem dos nobres mendigos e dos homens da padaria Gordor, que um dia pertenceu a Manéldur. Esse, então, Fodo, é o Um Real, o qual Çauron, após ter sido quase morto pelo nobre português da padaria (eles não fazem nada direito…), Manéldur, almeja possuir, para que possa voltar à vida por completo. Ele não deve obtê-lo jamais! Pelo contrário: devemos destruí-lo na máquina de xerox de Çauron, onde o Real foi falsificado e só onde pode ser destruído!

Hum… tá. Mas o que eu ganho com isso? – Perguntou Fodo, inocentemente.

O reconhecimento de toda a população Erviana… – disse Lalalf, mas, como Fodo olhou muito feio para ele, acrescentou: – e muito amor, afeto, carinho e um real mendiguético que me foi dado por um antigo companheiro meu. É muito lindo, você vai AR-RA-SAR com ele, mona!

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Sinédoque, Nova York

Maio 4, 2009

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Um dramaturgo hipocondríaco está sufocado com sua nova obra-prima: uma réplica em tamanho real de Nova York em um galpão, enquanto tem que conviver com as mulheres de sua vida.

Em seu novo alter-ego (Caden Cotard), Charlie Kaufman tenta nos mostrar a angústia da morte imediata e o egocentrismo de sua personagem. O dramaturgo não se preocupa quando suas mulheres desaparecem de sua vida ou quando os anos se passam. Preso a si mesmo, acha que o tempo não o deixará para trás e, sim, que estará sempre à frente. Dessa forma, Caden resolve criar sua própria Nova York, em uma tentativa megalomaníaca de se tornar Deus.

Como Deus de seu próprio mundo, ele comanda e escolhe o que cada um deve fazer, sempre seguindo a realidade dos eventos que se antecederam até a peça tornar-se, em dado ponto, o presente da vida de Caden. Leia o resto deste post »


Os Leões de Bagdá

Maio 3, 2009

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Os Leões de Bagdá remete, a princípio, a O Rei Leão, famosa animação da Disney, por também ser protagonizado por leões com comportamentos homólogos ao do Homem, e por um dos seus personagens – o infante do grupo, Ali – ser claramente inspirado no jovem Simba. Essa impressão, todavia, logo se dissipa quando o leitor é posto a presenciar, em caráter de flashback, uma forte cena de estupro de uma de suas protagonistas, a hoje idosa Safa. Posteriomente, as cenas de violência gráfica e o semblante dos corroboram: este não é um livro para crianças.

Os Leões de Bagdá é uma fábula de forte tom político que narra o cotidiano do grupo de lões do título, que enfim alcançam a tão almejada liberdade quando o zoológico em que se encontram é bombardeado e destruído por caças americanos. A trama, então, muda de ambiente; do zoológico para a destroçada cidade de Bagdá, onde eles se virão forçados a superar muitos empecilhos e desafios se quiserem sobreviver, mostrando que a tão sonhada liberdade pode vir com um preço alto demais. Leia o resto deste post »


Batman – A Piada Mortal

Maio 2, 2009

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Em A Piada Mortal, Alan Moore (Watchmen, V de Vingança) e Brian Bolland desconstruíram – e, no processo, redefiniram – a relação entre dois dos personagens mais emblemáticos das HQs: Batman, o Cavaleiro das Trevas de Gotham City, e Coringa, o Palhaço Psicótico. Vistos até então como antíteses um do outro, Moore e Bolland estabeleceram um paralelismo inédito entre os dois, visualizando-os não como seres opostos, mas, sim, como o mesmo lado de uma moeda observada de ângulos diferentes, partilhando de um mesmo elemento em comum.

Um dia ruim.

Para Batman – ou melhor, Bruce Wayne – esse “dia ruim” se manifestou na forma do assassinato de seus pais por parte de um assaltante ordinário, quando ainda uma criança; para o Coringa, na forma da morte de sua esposa grávida num acidente industrial, temperado pelo seu próprio fracasso profissional e pessoal.

Como consequência, Bruce optou por seguir o caminho do vigilantismo, adotando o semblante do ser que outrora mais temeu – o morcego – visando perpretar o mesmo medo inefável da infância na pele dos criminosos; o Coringa escolheu abraçar a loucura nua e crua, a negar ruidosamente todas as convenções e normais sociais que costumavam castrá-lo, a afastar-se o tanto quanto possível daquele ser patético e fracassado que costumava ser, tratando o passado como um vespeiro a se evitar.

"Basta um dia ruim para reduzir o são são dos homens a um lunático"

"Basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático"

Tais traumas foram instrumentais para delinear as suas vindouras personalidades de herói e vilão, as quais são, no fundo, meros subterfúgios, portos seguros contra toda a dor, desespero e vazio que os acometem. A diferença primodial entre os dois – e o quê, de certa forma, os define como algozes – é que enquanto o Coringa reconhece o aspecto escapista de sua condição, inclusive se gabando dela, Batman se nega a enxergar o absurdo que representa a idéia de um homem correndo por ai vestido de morcego, escondendo-se por detrás de frágeis racionalizações, procurando imprimir um propósito ao que faz e como faz.

Para o Coringa, as bases que sustentam e guiam a nossa sociedade são frágeis como um castelo de cartas, e que basta um pequeno sopro para fazê-la desmorononar e transformar o mais ordinário dos homens em alguém como ele. Que nossas noções de ordem e sanidade são desprovidas de significado real, meros véus que encobrem a realidade crua da vida. E é a sua tentativa de provar o seu ponto que se trata A Piada Mortal. Leia o resto deste post »


Jeff Buckley

Abril 25, 2009

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banner_musicabuckley-01Jeff Buckley é um daqueles músicos que teve uma passagem breve, tanto pela vida quanto pelo sucesso, mas que de alguma forma deixaram uma marca pessoal na história da música. Um dos raros casos de filhos de músicos famosos que possuem talento na mesma área de atuação de seu pai, Jeff é filho de Tim Buckley, músico conhecido por utilizar sua voz como principal instrumento de trabalho, cuja carreira abrange estilos como o pop, o folk e o rock experimental.

Interessante notar que o contato entre pai e filho foi bastante reduzido, tendo Tim visto seu filho apenas uma vez após se divorciar de sua mãe. Apesar de ter seguido o caminho da música, influenciado principalmente por sua mãe, uma pianista clássica, e seu padrasto, que lhe apresentou logo cedo a música de Led Zeppelin, The Who, Jimi Hendrix e Pink Floyd, inicialmente Jeff Buckley optou pelo posto de guitarrista, se recusando a cantar. O maior motivo era evitar comparações com seu pai, e tentar conquistar fama por seus próprios méritos.

Ironicamente, a ascensão ao sucesso veio após aceitar um convite para cantar num show tributo à Tim Buckley. Segundo Jeff, o objetivo de participar de tal tributo não era tentar conseguir fama à custa do nome de seu pai, mas sim resolver alguns problemas de ordem pessoal. Após o concerto, passou a se apresentar regularmente no café Sin-é no East Village de Nova Iorque. Seu repertório consistia de covers de rock, folk, R&B, blues e jazz, com a aparição constante das músicas em que trabalhava para seu lançamento próprio e que já haviam aparecido no demo Babylon Dungeons Sessions.

Grace

Grace

Os shows que fazia no Sin-é logo atrairam a atenção das gravadoras, anciosas por ter um talento como o seu constando em seu catálogo de artistas. Jeff assinou um contrato com a Columbia Records, que logo tratou de lançar no mercado o disco Live at Sin-é, retrato das apresentações de Buckley nesse período. Em 1994, dois anos após a assinatura do contrato, durante a turnê de divulgação do disco ao vivo, foi lançado o único disco de estúdio oficial de sua carreira: Grace.

O grande mérito de Grace não é somente apresentar o ótimo vocal e a excelente capacidade de interpretação que Jeff Buckley possuia, mas sim ter a cara de um álbum não de um artista iniciante, mas sim de alguém já bastante experiente na área. Grace é um dos poucos álbuns que abrem não só com duas ou três faixas excelentes, mas sim um que consegue manter esse ritmo por suas 7 primeiras faixas. Para um disco de 10 faixas, ainda mais de um artista iniciante, isso é no mínimo surpreendente.

Díficil falar de uma faixa específica que mereça atenção, pois o disco é daqueles que merece ser ouvido do começo ao fim, sem interrupções. Mas devo citar, como minhas favoritas, a faixa de abertura, Mojo Pin, a extremamente tocante Last Goodbye e a emocionante Lover, You Should’ve Come Over. Também vale citar a versão de Hallelujah, escrita por Leonard Cohen e a faixa Eternal Life. Em 2004, o disco foi relançado em sua Legacy Edition, contendo versões alternativas para algumas músicas, além de adicionar algumas gravações de estúdio não utilizadas com material inédito.

buckley-03O trabalho de divulgação de Grace seguiu por um ano e meio após seu lançamento. Apesar de suas vendas lentas, o álbum alcançou o disco de ouro na França e Austrália nos dois anos seguintes a seu lançamento. Em 2002, finalmente atingiu o disco de ouro nos Estados Unidos e no mesmo ano atingiu seis vezes o disco de Platina na Austrália. Após o fim da turnê, em 1996, Buckley começou a trabalhar em seu segundo álbum, intitulado My Sweetheart The Drunk, que nunca seria concluído.

Na noite de 29 de maio de 1997, enquanto esperava que sua banda voasse até o estúdio em Memphis onde estavam trabalhando, Jeff Buckley foi nadar no Wolf River Harbor, acompanhado pelo roadie Keith Foti. Após o roadie ter se afastado, para evitar que o rádio e a guitarra de Buckley se molhassem, notou que este havia sumido. Apesar dos esforços de equipes de resgate, seu corpo foi encontrado somente no dia 4 de junho.

A morte de Jeff Buckley, como a de todo artista promissor cuja vida é interrompida antes do previsto, não significou o fim de lançamentos com seu nome. Foram lançados diversos discos ao vivo, além das gravações não finalizadas de My Sweetheart the Drunk. Além disso, tanto Grace quanto Live at Sin-é foram relançadas com diversos extras, nas chamadas Legacy Edition. Apesar de soar como oportunismo por parte da gravadora (o que não deixa de ser em parte), o lançamento desse material só mostra uma vez mais o talento que Buckley possuia, que com o tempo poderia atingir níveis ainda maiores.

Em meio à diversos artistas descartáveis que surgiram na década de 1990, Buckley merece destaque pelo sua qualidade, e por não ter se rendido à moda do grunge, tão presente nessa época. Isso talvez explique a relativa falta de sucesso que obteve durante sua curta carreira, pois se recusava a seguir tais modismos. Recentemente seu trabalho vem sendo redescoberto, principalmente devido ao lançamento das Legacy Editions, que finalmente estão trazendo o tão merecido reconhecimento que Jeff Buckley não teve durante a vida.


O Senhor dos Reais: A Sociedade do Real (Parte II)

Abril 22, 2009

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O Senhor dos Reais

Para entender melhor esta parte, talvez você queira (na verdade, é provável que não) ler o primeiro e o segundo capítulo de O Senhor dos Anéis: Uma Festa Muito Esperada e A Sombra do Passado.

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Fodo foi dormir em seu quarto com seu amigo Lalalf, que era um velho sábio (na verdade mais pervertido do que sábio, mas as pessoas gostam de negligenciar essa informação), de mais de quinhentos anos de pura sacanagem inveterada e atuações em porno-chanchadas dos Dias Antigos. Durante a noite, quando Lalalf pulou para a cama de Fodo, alegando que estava com medo da maçaneta da porta, ele encontrou uma nota reluzente e brega no bolso da cueca (é, eu também já perdi as esperanças) do robert, e se levantou gritando:

Olha, que coisa mais incrível do mundo! Eu tinha perdido isso, Fodinho, obrigado por achar!

Mas Fodo, que de burro só tinha a cara e, talvez, alguma outra coisa, olhou para Lalalf indignado e gritou:

Perdeu nada, sua bicha! Eu achei a Nota, seu viado! Ela é minha! Minha! Meu presente de aniversário!

Tá bem, tá bem, miserável filho da mãe… mas espera aí! Fodo, essa não é uma nota qualquer… eu me lembro dela. Foi Çauron quem me mostrou naquela noite. Fodinho, esse é o Um Real!

Tá doido, mano Lalalf? Eu já disse que…

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